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Olhavam-se fixamente. Tinham esse hábito quando as palavras faltavam, como se silenciosamente pudessem captar no fundo das pupilas o que a alma do outro gostaria de dizer e não diz. Ficaram assim por longos minutos, as faces não mais que pouco centímetros afastadas, os corpos quentes em contraste com a noite fria e o sereno que caía sobre os grossos casacos de inverno.
Num gesto terno ela suavemente toca-lhe a face com a alva mão delicada e cálida. Respondendo ao toque, ele inclina o rosto e fecha os olhos, recebendo o carinho. Beija-lhe a mão como que se com tal gesto pudesse transmitir a ela tudo o que não conseguira dizer, e tudo o que ela não conseguira desvendar no fundo de seus olhos.
Ela tentava em vão segurar o choro. Os olhos, antes tão profundos e atentos, já se tornavam inseguros e rasos d’água. Ele não gostava quando ela chorava. Na verdade, também não gostava de seu silêncio. Foi aí que ela o quebrou, dizendo:
– Você disse que tinha medo de me perder… – titubeava, o choro retido fazia com que sua voz tremulasse. Não queria chorar. Gostaria de poder parecer forte, e com isso fazê-lo sentir mais confortável.
Em vão. O desconforto, o medo, a culpa, as lembranças apoderavam-se dele como ondas, revirando seu estômago e pressionando suas têmporas. Sério, balançou a cabeça afirmativamente. Os olhos negros, pequenos e levemente amendoados acentuavam-lhe a expressão grave. Sua vontade era a de acabar o mais rápido com isso, mas sem feri-la. Se houvesse uma maneira ele certamente o faria. Milhões de razões, pensamentos e motivos rasgavam-lhe a mente nesse momento, quando ela, surpreendendo-o, concluiu:
– Você sabe que já perdemos.

***

O texto é de 2006, mas ainda sim atual.

It’s been a long time

Na manhã fria de um dia de inverno, logo depois de acordar, ela olha seu reflexo no espelho e pensa em tudo o que aconteceu, e agora não existe mais. Um ano depois. Lembra que conheceu o amor, e ri um sorriso torto, amargo, imaginando se irá encontrá-lo novamente em outro alguém.

O amor, algo tão poderoso.

Mas mais poderosa é a mágoa.

desire

Essa madrugada eu acordei com o som de um trovão. Foi tão longo e alto que achei que as janelas do quarto iriam estilhaçar. Ali, deitada na minha cama, envolta em cobertas, com o coração disparado, me ocorreu: Maturidade pesa mais que malemolência.

Foi um daqueles pensamentos que seriam esquecidos pela manhã. O trovão cessou, eu me arrumei no leito e voltei a dormir.

Mas, já pela manhã, ainda me lembrava.

Talking about my generation

Todo mundo sabe que “Não saber o que quer” é o novo “Saber o que quer”.

E aí a gente olha uma possibilidade. Olha outra. Quer tudo, mas no fim não quer nada mesmo.

E aí, quando não querem a gente, é a gente quem quer.

E aí, quando finalmente queremos algo, não conseguimos e nos frustramos.

Todos os meus amigos são assim. E eu também.

Alguns querem dinheiro. E eu penso que a vida deve ser mais do que apenas ter.

Alguns querem amor. E eu penso que é o mais difícil de encontrar.

Sem mais, continuarei vivendo.

(Querendo, mesmo não sabendo.)

Pais&filhos

Primeira versão

Depois de muito tempo sem visitar seus pais, ela chega. Deixa as malas no chão e se demora em um abraço em seu pai. Os dois conversam entusiasmadamente quando ele nota a inscrição em seus pulsos “O que é isso, menina? Tatuagem? Coisa de bandido! Eu não acredito nisso! Você, tão bonita, tão inteligente com essas coisas de vagabundo!” Sem se abalar, ela responde “Mas pai, poderia ser pior. Poderia ser um filho.”

Fim da discussão.

Segunda versão

A situação é a mesma. O pai, a filha e a tatuagem. Ele observa a o rabisco no pulso da menina e começa o discurso. Ela responde “Mas pai, poderia ser pior. Eu poderia ter me afiliado ao PT, PCdoB ou virado sindicalista!”

O pai ri aliviado.


{Obviamente o texto é inspirado no meu pai, um sujeito de direita que jamais na vida usou ou usará barba e para quem a maior decepção seria ver um dos filhos envolvidos com o lado vermelho da politicagem}

Combo internet&telefone

Duas da manhã. Me ligou por um motivo peculiar: viu algo dele ou sobre ele na internet, Orkut, talvez Twitter e surtou. Precisava de alguém pra conversar. “Eu não sou boa pra ele?” me perguntava. O ponto não era ser boa ou não, mas ela repetia isso com a voz embargada, segurando o choro. Choro bobo, vocês sabem, pois esse não é um motivo para lágrimas. E ela era boa. Essa pergunta soava mais boba do que o choro. Por que sofremos com isso? Por que nos importamos? Disse algumas palavras agradáveis, de como ela era bonita, inteligente e ele era um tosco. “Ele não é o amor da minha vida” ela disse “Então pára de chorar, mané” eu retruquei.

Por que mesmos nos importamos?

Riu-se

Uma gargalhada longa e cheia de vida. Os dentes claros em contraste com as gengivas vermelhas e os lábios rosados e úmidos. Em torno de seus olhos, de um negrume brilhante, se faziam visíveis as pequenas fissuras causadas pelo contrair de sua pele. Pendia a cabeça para trás, seus cabelos balançavam soltos acompanhando o riso, como o corpo de baile ao som da banda. Sua pele alva refletia toda a pureza desse gesto. Apenas uma gargalhada.


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  • Sem título Setembro 8, 2009
    Olhavam-se fixamente. Tinham esse hábito quando as palavras faltavam, como se silenciosamente pudessem captar no fundo das pupilas o que a alma do outro gostaria de dizer e não diz. Ficaram assim por longos minutos, as faces não mais que pouco centímetros afastadas, os corpos quentes em contraste com a noite fria e o sereno […]

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