Arquivo de Setembro, 2009

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Olhavam-se fixamente. Tinham esse hábito quando as palavras faltavam, como se silenciosamente pudessem captar no fundo das pupilas o que a alma do outro gostaria de dizer e não diz. Ficaram assim por longos minutos, as faces não mais que pouco centímetros afastadas, os corpos quentes em contraste com a noite fria e o sereno que caía sobre os grossos casacos de inverno.
Num gesto terno ela suavemente toca-lhe a face com a alva mão delicada e cálida. Respondendo ao toque, ele inclina o rosto e fecha os olhos, recebendo o carinho. Beija-lhe a mão como que se com tal gesto pudesse transmitir a ela tudo o que não conseguira dizer, e tudo o que ela não conseguira desvendar no fundo de seus olhos.
Ela tentava em vão segurar o choro. Os olhos, antes tão profundos e atentos, já se tornavam inseguros e rasos d’água. Ele não gostava quando ela chorava. Na verdade, também não gostava de seu silêncio. Foi aí que ela o quebrou, dizendo:
- Você disse que tinha medo de me perder… – titubeava, o choro retido fazia com que sua voz tremulasse. Não queria chorar. Gostaria de poder parecer forte, e com isso fazê-lo sentir mais confortável.
Em vão. O desconforto, o medo, a culpa, as lembranças apoderavam-se dele como ondas, revirando seu estômago e pressionando suas têmporas. Sério, balançou a cabeça afirmativamente. Os olhos negros, pequenos e levemente amendoados acentuavam-lhe a expressão grave. Sua vontade era a de acabar o mais rápido com isso, mas sem feri-la. Se houvesse uma maneira ele certamente o faria. Milhões de razões, pensamentos e motivos rasgavam-lhe a mente nesse momento, quando ela, surpreendendo-o, concluiu:
- Você sabe que já perdemos.

***

O texto é de 2006, mas ainda sim atual.


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  • Array Setembro 8, 2009
    Olhavam-se fixamente. Tinham esse hábito quando as palavras faltavam, como se silenciosamente pudessem captar no fundo das pupilas o que a alma do outro gostaria de dizer e não diz. Ficaram assim por longos minutos, as faces não mais que pouco centímetros afastadas, os corpos quentes em contraste com a noite fria e o sereno [...]

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